Congresso Teológico-Pastoral
II Encontro Mundial do Papa com as Famílias
A família: dom e compromisso, esperança da humanidade
Rio de Janeiro, 1-3 de outubro de 1997

A Família e a Evangelização num mundo secularizado rumo ao Jubileu do Ano 2000

Conferência do Cardeal Roger Etchegaray
3 de outubro de 1997


O conferencista encarregado de tratar um tema tão diversificado tem a impressão de se encontrar numa encruzilhada de muitos caminhos, arriscando-se a tomar uma direção errada, que não responde à questão ou ao menos à amplidão do tema. Tentarei abordar o conjunto desse tema, sempre com os acentos que me parecem impor o lema deste II Encontro Mundial: "A Família, dom e compromisso, esperança da humanidade". É esta nota cristalina de esperança que eu gostaria que ressoassem em vossos ouvidos ao longo da minha conferência. Tudo me fala disso: o Evangelho, a Igreja, e agora, a perspectiva do grande Jubileu que o Papa João Paulo II aponta a nossos olhos cansados para mostrar o esplendor excepcional de 2000 anos de cristianismo.

Rumo ao Jubileu do Ano 2000

A virada dos 2000, agora já tão próxima, começa a excitar por toda parte as imaginações. Abrir um novo milênio é muito mais sugestivo e simbólico do que uma simples passagem de século. Recentemente, em um aeroporto da Indonésia, eu vi um avião de linha de uma nova companhia aérea intitulada "Air 2000", capaz de evocar todos os sonhos, todas as esperanças de um terceiro milênio. Este horizonte, no nosso mundo "desencantado", pode arrastar a humanidade nas redes de uma miragem milenarista ou de um terror apocalíptico, a menos que, no cúmulo da inconsciência, ela se satisfaça com gigantescos fogos de artifício ou um "reveillon" mais delirante do que nunca (as mesas já estão reservadas em certos restaurantes, certamente não nas favelas!). Para nós, cristãos, marchamos rumo ao ano 2000 com a "Tertio Millenio Adveniente" nas mãos, esta maravilhosa Carta Apostólica de João Paulo II onde o caminho é traçado com a minúcia de uma carta de estado-maior, sobretudo a meta, definida nitidamente. É bom ter sempre clara essa meta: "O objetivo prioritário do Jubileu é o revigoramento da fé e do testemunho dos cristãos. É necessário, para isto, suscitar em cada fiel um verdadeiro anelo de santidade, um desejo forte de conversão e de renovação pessoal em um clima sempre mais intenso de oração e de acolhimento solidário do próximo, especialmente os mais necessitados." (TMA 42).

Nada mais claro para aspirar ao cume do ano 2000, mesmo que diversos possam ser os itinerários. Mas como uma escalada raramente se faz solitariamente, João Paulo II apresenta a família cristã como uma "equipe de alpinismo" natural: "É necessário que a preparação do Grande Jubileu passe por cada família" (TMA 28). E dá uma razão simplicíssima, mas profunda: "Não foi através de uma família, a de Nazaré, que o Filho de Deus quis entrar na história da humanidade?" (ibid.).

Em um mundo secularizado

Eis-nos, então, em cheio no nosso tema: como a família cristã se coloca em marcha rumo ao Ano 2000? "Em um mundo secularizado", diríamos. E esse dado se faz importante porque, -- dentro de um Encontro de âmbito mundial como este -- faz ver que a secularização não é um fenômeno apenas ocidental mas se estende ao mundo todo, com maior ou menor intensidade. Vejamos rapidamente o que isto significa, em particular para a família.

A secularização pode trazer o melhor e o pior, após a legitimação do mundo pluralista, que reivindica sua autonomia e rejeita qualquer tutela religiosa até a ruptura radical entre religião e sociedade e a intolerável privatização da religião, relegada à margem de toda vida social. A religião não fundamentando mais a sociedade e a sociedade não se justificando mais pela religião, resulta sem dúvida para a Igreja uma maior liberdade em relação às sociedades e também uma maior exigência, para a Igreja, de fazer ressaltar o que de peculiar e original tem a sua mensagem evangélica. Mas quando nada mais de religioso rege publicamente o destino do homem, pior, quando tudo o que é público rechaça o religioso, a sociedade secular se torna irrespirável para qualquer homem e especialmente para o cristão, que busca santificar toda a sua vida, inclusive os atos sociais de sua existência, dos quais o casamento é, sem dúvida alguma, o compromisso mais significativo, uma vez que a família é a célula fundamental da sociedade.

Numa sociedade secularizada, a família não pode sobreviver senão superando-se, por uma resistência heróica: ou ela se dobra e rompe, ou ela tempera-se nessa resistência e se fortalece.

As primeiras linhas do capítulo da Gaudium et Spes sobre a Família (no 47) chamam a atenção para o estreito vínculo que há entre a salvação da pessoa e da sociedade humana e o bem-estar da comunidade conjugal e familiar. Lembro aqui o problema do aborto no qual se acentua o abismo entre o legal e o moral, em que prevalece a concepção minimalista da lei, que nivela por baixo, legalizando o que acontece de pior em um dado momento em uma sociedade. Assim, tornando legais condutas humanas que favorecem períodos de depressão ou de decadência moral, a lei lhes dá uma espécie de aval, de caução: tudo o que é legal se torna, aos olhos do cidadão, normal, e por isso, moral, arrastando assim para uma regressão da consciência humana. Que se poderá esperar de uma sociedade que se apoia no fracasso? O Estado tem uma missão bem mais nobre do que a de gerar, por omissão, uma crise de sociedade, e a Igreja faltaria a seu dever profético se ela deixasse de fazer soar sua voz para defender o homem, às vezes contra ele mesmo. Eis porque a Igreja não se interessa tão-somente pela vida privada do homem mas também pela sua dimensão política e social. Em uma sociedade liberal e permissiva, é difícil viver a liberdade. Decidindo que não tem mais a vocação de intervir durante as primeiras semanas da vida gerada no ventre, o legislador transfere todo o peso da responsabilidade para a mulher gestante sozinha. É um fardo bem pesado, sufocante, que lhe impõem aqueles que pretendem liberá-la; porque a consciência necessita de apoio, tanto interno como externo, de ambiente social e até jurídico.

A Família e a Evangelização

Este é o centro do tema que me foi confiado. Creio que chegamos ao núcleo do nosso assunto e podemos agora abordar com mais clareza este tema essencial para as famílias cristãs. Família e Evangelização, isto é, evangelização da família e evangelização através da família. A família, que se define como uma instituição social, espaço de relacionamento e transmissão. O Evangelho, que se apresenta como uma mensagem, um tempo de chamado e de superação. Como estabelecer a relação entre a família, polo de existência, e o Evangelho, polo de referência? Demonstrando que o Evangelho não atinge sua plena difusão a não ser quando penetra o coração da família e que a família não atinge a sua total dimensão senão na fidelidade ao Evangelho. Nesse sentido, a família é um desafio para o Evangelho, mas também o Evangelho é um desafio para a família.

1. A família é um desafio para o Evangelho

Se nós devemos estar firmes na defesa da instituição familiar e do direito das famílias em razão justamente das ameaças da sociedade secularizada (a família é uma "herança ameaçada", dizia Paulo VI), não podemos contentar-nos com isso, pois o Evangelho nos leva mais longe, muito mais longe que isso. Cristo dignificou muito o matrimônio, fazendo-o um sacramento e chega-se mal e mal a compreendê-lo, porque, de todos os sacramentos, o matrimônio é o que envolve a realidade mais humana, mais carnal, mais quotidiana: a realidade do amor. O matrimônio cristão permanece um vaso de barro, mas é totalmente retomado, transfigurado, no mistério da salvação. Mais ainda, o amor conjugal se torna o símbolo do amor "de Cristo pela sua Igreja". "Este mistério é grande", exclamou São Paulo (Ef 5,33). Daí a responsabilidade dos lares cristãos que devem testemunhar tal mistério, e dos pastores que devem ajudar os lares nessa missão! A tarefa do casal de fé é aumentar profeticamente, em si, na vida familiar e em torno de si, a nova criação onde serão perfeitamente conjugadas a intimidade e a universalidade do amor, sem que a primeira perca a sua profundidade e sem que a segunda perca a sua extensão. Este horizonte místico pode parecer a alguns inacessível; é, por isso mesmo, o pano de fundo de todo casamento cristão. É o Evangelho que é assim, não reservado aos "puros" e às "elites", mas que é exatamente a religião do sal da terra e do fermento na massa. E estejamos certos que há mais lares do que se pensa que testemunham este "grande mistério": o matrimônio cristão é um modelo vivido, e não somente viável, uma realidade não uma utopia. E mais e mais são os que se voltam para esses lares como luz em meio às trevas: pressentem que o matrimônio cristão possibilita sair das fatalidades biológicas ou sociais que os ameaça ou já os massacra. É uma boa-nova que a Igreja anuncia ao mundo sobre a sexualidade, o amor, o casamento. Ela o sabe, mas muito freqüentemente vacila ao apresentar essa boa-nova. A Igreja ganharia muito em melhor expor sua doutrina e melhor justificar suas exigências morais. Deve esforçar-se para que seu segredo -- sua união com Cristo -- lhe seja apresentado dia após dia, em nome do Senhor, pelos esposos dos quais ela é o testemunho maravilhoso e o fervoroso sustentáculo.

2. O Evangelho, desafio para a família

E assim chegamos à segunda parte do dístico: a família não é só lugar de expressão e transmissão do Evangelho, mas também lugar de interpelação e de provocação pelo Evangelho. O Evangelho não é só a referência que dá à família seu significado último e seu verdadeiro valor, é também essa mensagem do absoluto que anuncia o Reino e obriga a pronunciar o sim ou o não à conversão ao Senhor. A lógica evangélica vai até à impertinência evangélica. É isso que surpreende no Evangelho, a liberdade soberana de Jesus diante dos seus laços familiares. Deixa seus parentes durante três dias na peregrinação ao Templo e se surpreende do próprio espanto deles (cf. Lc 2,50). Quando, em plena pregação, vêm lhe dizer que sua família está à sua espera e o chama, ele responde, incisivo como um fio de navalha: "Quem são minha mãe e meus irmãos?... Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Mc 3,35). E à mulher que admira aquela que o carregou e aleitou, ele replica: "Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!" (Lc 11,27). Jesus não contesta a família mas passa a um nível superior, a esse plano último que é o do absoluto de Deus, diante do qual toda realidade humana passa para segundo plano. Destarte é necessário ainda entender esta palavra: "Se alguém vem a mim e não me prefere a seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14,26). É o Cristo que funda a escala de valores da família, que faz crescer o amor, o purifica e lhe dá horizontes ilimitados; por esta razão, o amor exclusivo de Cristo, tal como o vivem os homens e as mulheres no celibato pelo Reino dos Céus, é essencial para o êxito cristão das famílias.

Trata-se da exigência mais alta, a que dá a um destino de homem e de mulher a coerência evangélica, que não é para corações divididos. Mas ao mesmo tempo, uma vez que é soberano, este apelo evangélico leva a uma purificação em vista a uma expansão dos laços familiares. Não é verdade que um certo modelo familiar arrisca às vezes de fazer do lar um espaço fechado ou não ultrapassa a fronteira das almas? Não acontece de um certo espírito de família afastar de outras famílias? Tal confinamento impede de ir ao aberto onde sopra o Espírito. Mais do que filhos-modelo, quer filhos responsáveis. Mais do que a doçura do lar, requer o desconforto da abertura aos outros. De fato, o Evangelho é para a família um desafio permanente e exigente. A família não será testemunha e instrumento do Evangelho para o mundo senão deixando-se questionar pelo Evangelho. Pelos princípios que a fundamentam, pelos valores que traz, a família cristã é diferente das outras famílias. A diferença está em que é fonte de irradiação de um dinamismo interior, e não tanto de um modelo estabelecido. Ela tem sua fonte no Evangelho e dele tira sua identidade. Pelo Evangelho se renova incessantemente. Nele está a sua verdade e sua nobreza. Nele está a sua vocação e sua missão.

"A Família, dom e compromisso, esperança da humanidade". Há dois anos, a Semana Social da França foi consagrada à família com o slogan: "A família, uma idéia nova". Certamente a família é um dos lugares de expectativa, de esperança para nossos contemporâneos; carrega em si mesmo o futuro do mundo. Isso supõe que a família cristã tenha plena confiança em si mesma. A família cristã tem uma palavra de salvação a dizer. Uma palavra de salvação a viver, um sinal de salvação a apresentar ao mundo. Mas não poderá ser sinal de esperança senão fundada na graça do Espírito, que é o único que pode suscitar o pleno entendimento do plano de Deus sobre a família, o único que pode dar a fortaleza para acolher esse projeto e cumpri-lo.

Este mistério de Deus é grande, dizia São Paulo. Ouso acrescentar, é grande demais para os nossos pobres corações; resta-nos submergir-nos no coração inesgotável de amor de Deus, única fonte capaz de saciar nossa sede sem estancá-la jamais plenamente, porque "a fonte é mais forte que a sede".

Roger Card. Etchegaray